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quinta-feira, fevereiro 05, 2004

As Múltiplas faces da Engenharia de Produção

Reinaldo Pacheco da Costa*

O que define uma engenharia, antes de tudo, é a existência de uma "obra", já que Engenharia, em sua definição ampla, é um campo analítico interdisciplinar que se utiliza de ciências e técnicas para conceber, planejar, projetar, implementar e controlar "obras", que podem ser "artefatos, sistemas e processos".
Ao longo do tempo, no entanto, o conceito de "obra" foi ampliado e passou a envolver também o sentido não-físico do termo. Em sociedades complexas, a "obra" pode ser um edifício, um programa de computador, um sistema de contabilidade, um modelo de previsão de demanda, um gráfico PERT-CPM, uma decisão estruturada de investimento etc.
Em decorrência dessa expansão no conceito de obra, todas as engenharias e, particularmente, a Engenharia de Produção (EP) também viu seus limites ampliados. Este é o caso de sua aplicação na economia agrícola, em uma "obra" como o cenário de decisão sobre a renovação ou não de um canavial.
Em primeiro lugar, a lavoura de cana-de-açúcar é uma entidade física com diversos atributos: localização, tipo de solo, divisão física parcelada, variedade de cana-de-açúcar plantada, estágio de crescimento (número de cortes já efetuados, pois trata-se de cultura semi-perene), período do ano e suas diferentes maturações etc. Daí a necessidade de se "olhar" o canavial em sua multiplicidade de fatores. E essa interdisciplinaridade caracteriza o canavial enquanto "obra" de Engenharia de Produção.
Para um contabilista, o canavial é um Plano de Contas. É uma firma estabelecida, que dispõe de registros de entradas e saídas, com finalidade fiscal, legal e estatutária. Para o engenheiro agrônomo, o campo de análise é diferente. O canavial é um ser vivo, biológico, uma cultura que pode até ser perene, com variedade e genética diversas, além de produtividades, rendimentos e precocidades múltiplas.
Já para o economista, a cana-de-açúcar é uma matéria-prima a ser transformada em mercadoria e, para o administrador de empresas, é um negócio que exige gerenciamento, recursos humanos, definição de cargos e funções etc.
A produtividade do canavial varia em função do clima, das exigências da indústria na presteza da queimada. Se colhermos a cana-de-açúcar no seu período de maturação máxima (medida pela relação entre kg de açúcar por hectare), que na região Sudeste do Brasil acontece mais ou menos em agosto, a usina só operaria um mês no ano, tendo conflitos, portanto, com o cálculo de capacidade da planta industrial. Neste ponto, a Engenharia de Produção pode oferecer uma importante e específica contribuição.
O que é necessário, portanto, para tomar a decisão de "renovar" ou não um canavial? Exatamente uma segunda característica da EP: o entendimento sistêmico. Por que dividir o canavial em talhões (unidade mínima de produção em que as características físico-químicas e biológicas se pretendem únicas, ou seja, um tipo de solo, com um tipo de variedade, um estágio de corte etc)?. O que definiria a sua renovação (a queda do rendimento agrícola em toneladas por hectare)?
O contabilista dificilmente poderia "captar" esta contabilidade, mas o cálculo do custo de um talhão não é tradicional e depende do número de cortes até a renovação. Esse número de cortes ideal, sob o ponto de vista econômico, é definido por meio de uma função biunívoca a partir do custo do talhão.
E como o custo do talhão depende do fluxo de caixa financeiro – função do número de cortes, já que a cultura é manejada de forma semi-perene –, a renovação dependerá de uma taxa de juros de desconto. O problema é que um engenheiro agrônomo dificilmente aceitará uma taxa de juros como fator decisivo e aqui começam as idiossincrasias.
Decidir sobre a renovação de um canavial exige, portanto, além da negociação de conflitos decisórios, a capacidade de manipular um grande volume de informações e alternativas. Aqui entra a terceira e última característica desta "obra" de engenharia: a tecnologia, representada pelos modelos de decisão e aplicativos de computadores que os operacionalizam.
As três características apresentadas – interdisciplinaridade, visão sistêmica e tecnologia adequada - apontam para o engenheiro de produção como o profissional adequado para orientar a tomada de decisão.
Como se vê, a EP é um campo que faz fronteira e se intersecciona com vários ramos das ciências, e não só com Economia e Finanças, sendo aplicada hoje em todos os setores da economia: agricultura, mineração, construção civil, manufatura, transporte, comunicações, comércio, sistema financeiro, serviços, administração pública, entre muitos outros.
A maneira como a Engenharia de Produção aborda as perspectivas humanas e organizacionais tem a ver com o pessoal que participa do desenvolvimento e das especificações de suas obras e sistemas, assim como quem as opera. O principal objetivo da EP é reunir recursos, pessoas e organizações necessárias para que cresça significativamente a probabilidade de que suas recomendações sejam levadas em consideração.
Diferentemente de outros campos da Engenharia, a EP é uma engenharia de gestão em que problemas complexos de qualquer porte, de empresas públicas ou privadas, de serviços ou manufatura se beneficiam de seus métodos e técnicas, visando a criação e melhoria de produtos e serviços.

*Reinaldo Pacheco da Costa é professor do Departamento de Engenharia de Produção da Escola Politécnica da USP.

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