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sexta-feira, agosto 22, 2014

UCHO HADDAD: Sem Eduardo Campos, voo com destino ao Palácio do Planalto sofre arremetida



Em tese, apenas nessa condição, a ausência de um candidato facilita uma disputa eleitoral. A trágica e inesperada morte de Eduardo Campos, em 13 de agosto, mudou o cenário da corrida ao Palácio do Planalto. Isso deve tornar a disputa ainda mais difícil, pois Marina Silva, candidata a vice na chapa até então encabeçada pelo ex-governador de Pernambuco, deve assumir a candidatura do PSB à Presidência da República.

Por enquanto, o Brasil está no embalo da comoção, até porque morreu um político jovem e com futuro promissor, mas dentro de alguns dias a campanha eleitoral retoma a sua sordidez. Ou seja, os falsos tapinhas nas costas dados nos familiares de Eduardo Campos durante o velório, em Recife, serão substituídos por golpes supostamente certeiros nos subterrâneos eleitorais. Assim é a realidade da política nos bastidores, um universo em que predomina o jogo sujo e rasteiro.

É prematuro e perigoso fazer qualquer tipo de prognóstico sobre quem vencerá a eleição presidencial de outubro próximo, mas pelo menos uma aposta é possível arriscar. Quem mais perde com a ausência de Eduardo Campos é a presidente da República, Dilma Rousseff, candidata à reeleição. Isso coloca por terra todas as ilações maldosas e esquizofrênicas de que petistas estariam envolvidos na queda do avião que matou Campos. Se esse tipo de conjectura insana encontra alguma nesga de espaço na seara da razoabilidade, melhor seria ao PT que Marina Silva tivesse embarcado na aeronave no lugar de Eduardo Campos. Afinal, na última eleição presidencial Marina amealhou quase 20% dos votos válidos depositados nas urnas. O que não é pouco, vale lembrar.

No contraponto, supõe-se que esse contingente de votos arrebatado por Marina foi distribuído no segundo turno da eleição presidencial de 2010 entre José Serra e Dilma Rousseff, cabendo ao tucano pouco mais da metade desse quinhão. O que não significa que obrigatoriamente isso acontecerá com os votos que até então tinham sido cabalados por Eduardo Campos. O cenário do momento é de interrogações e análises.

Há nesse quadro nebuloso alguns pontos a considerar. Dilma Rousseff, que quase quatro anos depois da posse ainda não conseguiu mostrar a que veio, terá mais dificuldade para convencer o eleitor sobre a importância de um novo mandato. Afinal, quem nada fez até agora, nada continuará fazendo. Sem contar que a crise econômica é o maior adversário da petista nessa disputa, uma vez que no cotidiano do trabalhador o salário acaba e o mês continua.

Um dos principais destaques da eleição deste ano é o desinteresse dos cidadãos em relação ao processo sucessório como um todo. Esse descontentamento fica claro no contingente formado por “indecisos” e “brancos e nulos”, que representa quase um terço do eleitorado nacional (aproximadamente 140 milhões de pessoas aptas a votar). Ou seja, se “indecisos” e “brancos e nulos” representassem um candidato, esse seria o próximo presidente da República. O que explica a enxurrada de desmandos que há mais de uma década varre o Brasil. E dependo do resultado das urnas continuará varrendo.

Deixando de lado a visão macro da corrida presidencial e passando a analisar os candidatos de forma isolada, a petista Dilma é que mais terá problemas com a ausência de Eduardo Campos. Se até o último dia 13 de agosto sua situação não era a mais confortável em termos eleitorais, inclusive dentro do próprio PT, de agora em diante seu esforço terá de ser triplicado, caso queira convencer os eleitores fora do seu reduto cativo. O que em minha opinião é missão quase impossível. No capítulo paulista do PT há alguns próceres da legenda que não escondem o descontentamento com a presidente da República e sem qualquer cerimônia têm dito “o pior é que teremos de votar na Dilma”.

O grande teste para Dilma surgirá nas próximas horas, com a retomada dos negócios no mercado financeiro nacional e internacional. Qualquer movimento brusco de tão importante setor poderá representar a decretação antecipada da derrota da candidata do PT, que há muito deixou de merecer os salamaleques do capital. Isso significa que para o PT será ainda mais difícil captar recursos para uma campanha eleitoral que sem a participação de Eduardo Campos será ainda mais cara. Aliás, Lula, que diz estar tentando passar o chapéu diante do empresariado para reforçar o caixa da campanha da sucessora, tem enfrentado inesperadas dificuldades.

O caso de Aécio Neves não é tão complicado, mas o presidenciável tucano terá uma missão dupla a partir de agora. A primeira delas é se reinventar como candidato, levando seu discurso mais à esquerda, como forma de atrair os eleitores de Eduardo Campos que não votarão em Marina, caso ela seja confirmada pelo PSB como cabeça de chapa. A segunda tarefa de Aécio será a de tirar a poeira do espelho retrovisor, pois Marina deve se aproximar, não a ponto de ultrapassá-lo nas próximas horas, mas é preciso atenção por parte do tucanato.

O ponto a favor da campanha de Aécio Neves é que deve aumentar o número de doadores de campanha dispostos a reforçar o caixa tucano. Em tempos de campanha acirrada, o fator financeiro sem dúvida é preponderante, desde que os recursos sejam investidos adequadamente, não usados para financiar marqueteiros fregueses do vedetismo. Em suma, a situação de Aécio no cenário atual é a “menos difícil”, mas o tucano terá pela frente semanas de muita pressão, por causa da necessidade de se aproximar ao máximo de Dilma, o que poderá neutralizar uma chegada abrupta de Marina Silva.

A situação de Marina Silva não é tão confortável quanto parece. Por enquanto os partidos que sustentam a candidatura do PSB estão agindo com cautela, até porque em público seus filiados decidiram não falar sobre quem assumirá o lugar deixado por Eduardo Campos, mas nos bastidores o assunto corre solto e com direito a articulações de todos os lados. A grande pedra no caminho de Marina é o PSB aceitar seu estilo e abraçar sua ideologia política. Esses dois detalhes podem trazer problemas para a candidatura do PSB, cujo novo presidente, Roberto Amaral, é extremamente próximo de Lula e não opera na mesma frequência de Marina Silva.

Amaral, que de chofre foi contra a candidatura do PSB à presidência, teria dito a Marina Silva que ela não será obrigada a permanecer no partido caso seja eleita. Essa declaração, se confirmada, radiografa com precisão o clima que reina no vácuo político-eleitoral deixado por Eduardo Campos.

Outro problema a ser enfrentado por Marina Silva é a captação de recursos para a campanha. Uma coisa é o entusiasmo de parte do eleitorado com a sua chegada à liderança da candidatura, outra é a disposição dos doadores de despejarem dinheiro em uma candidata que é muito mais à esquerda do que Dilma Rousseff e sua turba. Marina tem algumas portas abertas no reduto financeiro nacional, mas um esquerdista arrancar dinheiro de quem vive agarrado ao capitalismo não é tarefa fácil. Ademais, o agronegócio, setor que sempre aposta em eleições presidenciais, quer distância de Marina Silva.

Com o cenário eleitoral no âmbito da Presidência da República totalmente embolado, a disputa será decidida por míseros pontos percentuais. Com isso o presidenciável do PSC, Pastor Everaldo, aumenta o seu cacife para o segundo turno, que de eventual passou a ser considerado como líquido e certo. Oscilando no patamar de quatro pontos percentuais de intenções de voto, Everaldo certamente será cortejado pelos dois candidatos que passarem ao segundo round da peleja. Até lá, o pastor-candidato terá não apenas de manter a visibilidade de sua candidatura, mas aumentá-la em quantidade e qualidade, caso queira sentar-se à mesa de negociações dentro de algumas poucas semanas.

Como a vida muda a cada instante, não se deve desconsiderar o fato de que no plano de voo com destino ao Palácio do Planalto o tempo fechou repentinamente, a visibilidade reduziu de forma considerável e a pista do sucesso encurtou sobremaneira. Conseguirá aterrissar com doses de tranquilidade, depois da inesperada e brusca arremetida, quem estiver com o cinto político afivelado e conseguir manter a estabilidade da campanha, sem jamais tirar o olho do retrovisor, pois o inesperado sempre surge no ar. Do contrário, cair de nariz será inevitável.

(*) Ucho Haddad é jornalista político e investigativo, analista e comentarista político, cronista esportivo, escritor e poeta.

Fonte: Ucho.info

EMBRAPA: Sumário de Touros Nelore – Avanço na Pecuária Tropical


Artigo de Cleber Oliveira Soares

Chefe-geral da Embrapa Gado de Corte

Um dos grandes desafios da pesquisa e do desenvolvimento agropecuário é a celeridade em gerar e ofertar tecnologias, produtos, processos, serviços e conhecimentos aplicados às cadeias produtivas. Diretamente associada está a premente necessidade de constante atualização dos sistemas de produção, pelo uso de novos recursos tecnológicos gerados pela pesquisa. 

No cenário da produção de proteína de origem animal, o Brasil pecuário se consolidou graças ao clássico tripé: Alimentação – Saúde – Genética Animal, e, claro, às tecnologias associadas a ele.

Os Sumários de Raças são ferramentas fundamentais para a evolução genética e produtiva dos rebanhos. Esses deram, e continuam dando, suporte para o Brasil tornar-se e manter-se como um dos mais estratégicos celeiros de genética bovina avançada. Destaca-se, aqui, a raça Nelore, sustentáculo para produção de carne brasileira.

Nesse contexto, a Embrapa Gado de Corte disponibiliza à cadeia produtiva da carne, em geral, e em especial aos criadores e selecionadores da raça Nelore, a quarta edição do Sumário de Touros da Raça Nelore do Programa Embrapa de Melhoramento de Gado de Corte - Geneplus. O sumário é fruto de um árduo, criterioso e preciso trabalho que vem sendo desenvolvido desde 1966. Trabalho de altíssima qualidade, com participação de uma diversidade de atores-chaves: do produtor rural e do profissional técnico ao cientista em genética de instituições parceiras.

O primeiro estágio se dá a partir de um plano de trabalho, sob orientação do qual, os criadores participantes do Programa Geneplus-Embrapa coletam os preciosos dados de campo: genealogia e desempenho produtivo e reprodutivo dos animais. Em seguida, sobre estes, uma competente, experiente e dedicada equipe técnica constituída por pesquisadores e analistas se encarrega de aplicar as mais modernas técnicas e ferramentas de avaliação genética e gerenciamento de bases de dados. Desta forma, os dados de campo passam a produzir informações tecnológicas preciosas para a realização, de fato, do melhoramento genético, não apenas dos rebanhos dos criadores participantes do Programa, como de toda a raça Nelore, pela oportunidade do uso de biotécnicas reprodutivas de elevado impacto disponíveis atualmente.

A base de dados que suporta esta tecnologia inclui os dados de progênies nascidas no período de 1996 a 2014 que, depois de submetidos às devidas análises de consistência, totalizaram 1.681.162 animais com registros válidos, relacionados às diversas características. Estamos falando de uma população de 2.107.241 bovinos da raça Nelore. 

Esse estratégico ferramental oferta dados e informações cruciais ao produtor rural. Para grande número de características foram estimadas as Diferenças Esperadas na Progênie (DEPs) diretas e maternas. Além disso, quatro diferentes Índices de Qualidade Genética são apresentados junto às tabelas classificatórias de touros, entre outros importantes resultados.

O Sumário Nelore celebra e torna efetiva a contribuição da Embrapa e do Programa Geneplus-Embrapa na busca de soluções tecnológicas avançadas e adequadas ao atual cenário do melhoramento genético da raça Nelore. Faz jus à importância estratégica dessa raça para a pecuária de corte brasileira e do mundo tropical.

Se o Brasil é o expoente em genética Nelore é porque vale a pena investir em ciência e tecnologia.

O que diria nos dias de hoje o monge austríaco Gregor Johann Mendel?


Informações com:
Kadijah Suleiman
Telefone: +55 (67) 3368-2203 
Embrapa Gado de Corte
Campo Grande/MS
Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa)

AMIZADE VERDADEIRA: Aécio homenageará seu amigo Eduardo Campos em seu primeiro programa da propaganda eleitoral gratuita




Aécio diz à coordenação de campanha que vai gravar homenagem a Campos


DANIELA LIMA na Folha

O senador Aécio Neves (MG), candidato do PSDB à Presidência da República, avisou aliados e integrantes da coordenação de sua campanha que vai gravar uma homenagem a Eduardo Campos (PSB-PE) para exibir em seu primeiro programa da propaganda eleitoral gratuita.

Segundo pessoas ligadas à campanha do tucano, ele decidiu prestar o tributo a Campos no fim da noite desta quarta-feira (13), horas depois da confirmação da morte do pernambucano em um acidente aéreo.

Aécio Neves em coletiva de imprensa sobre a morte de Eduardo Campos
Adversários nessas eleições, Aécio e Campos tinham uma relação pessoal. Se conheciam há mais de 20 anos e se tratavam como amigos. Nos últimos meses, com a aproximação da campanha oficial, se afastaram, mas não deixaram de ter uma relação pessoal cordial.

Após receber a notícia do falecimento de Campos, Aécio decidiu se recolher. Ele cancelou sua agenda de campanha, fez um pronunciamento oficial em São Paulo na noite desta quarta e, depois, viajou para o Rio de Janeiro, onde dormiu com a família.

Ainda na capital paulista, depois de fazer sua fala à imprensa, o senador disse a um grupo de pessoas em seu comitê que a morte de Eduardo o havia abalado "como poucas coisas na vida". "Eu quero ir para casa, rever minha mulher, meus filhos. Nesses momentos a gente repensa tudo, olha para as coisas que realmente têm valor".

Embora seu entorno esteja se movimentando, Aécio tem evitado falar sobre política. Ele passou esta quinta-feira no Rio de Janeiro, sem assessores.




BLOG DO CORONEL: O futuro é o imponderável. O vídeo abaixo mostra o quanto o Brasil perdeu com a morte de Eduardo Campos. No diálogo com Aécio, em sua casa, não há cinismo, não há maldade, não há armadilhas. Há uma relação entre dois jovens políticos empenhados na mudança. O diálogo soa hoje emocionante. Assistam. Ouçam.


quinta-feira, agosto 21, 2014

A HIPOCRISIA DO PT: A grande seita dos cínicos deveria ao menos poupar a família de Eduardo Campos do espetáculo do farisaísmo




A grande seita dos cínicos deveria ao menos poupar a família de Eduardo Campos do espetáculo do farisaísmo, registrou o comentário de 1 minuto para o site de VEJA, depois de registrar a colisão frontal entre dois palavrórios de Lula sobre o mesmíssimo ex-aliado que ousou desgarrar-se do rebanho. No primeiro, despejado em março numa conversa com empresários, o ex-presidente enxergou em Eduardo Campos uma versão pernambucana do Fernando Collor de 1989.

(Em 1993, numa entrevista ao jornalista Milton Neves, o agora amigo de infância de Collor disse o que pensava do arrivista escorraçado do cargo pela pressão popular. Segue-se um trecho transcrito sem correções: “Ao invés de construir um governo, construir uma quadrilha como ele construiu, me dá pena, porque deve haver qualquer sintoma de debilidade no funcionamento do cérebro do Collor. Lamentavelmente a ganância, a vontade de roubar, a vontade de praticar corrupção, fez com que o Collor jogasse o sonho de milhões e milhões de brasileiros por terra”)

Nesta quarta-feira, numa nota encomendada a algum assessor capaz de escrever, o ex-presidente resolveu compensar o insulto que Campos ouviu em vida com uma promoção póstuma. Segundo Lula, o Brasil acabou de perder “um homem público de rara e extraordinária qualidade” na queda do Cessna que, caso se espatifasse cinco meses atrás, teria apenas dispensado o país de perder o sono com uma reencarnação da figura que descreveu no parágrafo anterior.

Ou coisa pior, vinham avisando os disparos dos bucaneiros alocados pelo PT no front da internet. A fuzilaria se intensificou em janeiro, com publicação na página do partido no Facebook de um artigo que retrata Eduardo Campos como “um playboy mimado”, “um tolo deslumbrado”, “um ambicioso que traiu Lula, Dilma e a memória do avô Miguel Arraes”. Fora o resto.

O serviço sujo se estendeu à área de comentários, infestada de militantes que amam concluir o desfile de adjetivos grosseiros com a ofensa anabolizada por letras maiúsculas e o buquê de pontos de exclamação: CANALHA!!!!! Surpreendidas pela morte do alvo, as milícias redescobriram em segundos que Eduardo Campos era um bom companheiro. Os generais do lulopetismo já veem no Judas de ontem um forte candidato à canonização. Dilma só não chorou na TV por falta de treino. E a tropa toda ensaia com muita aplicação a cara de viúva inconsolável recomendada a penetras de velório.

Em países afeitos ao convívio dos contrários, ninguém estranha a presença de líderes de distintos partidos na cerimônia do adeus a um velho adversário. Se a luta pelo poder obedece a regras civilizadas, se não são permitidos golpes abaixo da cintura, não há razão para constrangimentos. Esse rito ecumênico só acontece em países que erradicaram a selvageria política. Não é o caso de um Brasil governado por gente que acha que, numa eleição, só é proibido perder.

Lula divide o país em “nós”e “eles”. “Nós” são os que se curvam sem mugidos aos desígnios do chefe. “Eles” são o resto, e como restos merecem ser tratados. Os celebrantes de missas negras revogaram o sentimento da honra e removeram a fronteira que separa a crítica dura do agravo que fere a alma. Alguém precisa ensinar-lhes que infâmias imperdoáveis não são anuladas por notas hipócritas.

Até lá, os cínicos profissionais continuarão aparecendo nos velórios dos afrontados com o mesmo desembaraço que exibem em festanças no clube dos cafajestes.

DORA KRAMER: Rasteira do destino




Desde o início esta eleição estava marcada pela imprevisibilidade. Mas o inesperado acabou vindo antes do resultado, trazendo consigo a mais impactante das surpresas no acidente que matou o candidato do PSB à Presidência, Eduardo Campos, e outras seis pessoas que estavam no avião que caiu em Santos (SP) na manhã de ontem.

Uma rasteira do destino que corta de forma brutal a trajetória de um político vivaz, habilidoso e, característica rara, com um bom humor que o grande público não teve oportunidade de conhecer. 

Na tarefa de se tornar conhecido nacionalmente, o ex-governador de Pernambuco estava empenhado em mostrar suas qualidades de governante. Natural, não poderia nessa fase ocupar seu tempo mostrando aos eleitores suas qualidades de exímio comediante.

Melhor dizendo, de imitador. Inesquecíveis as performances em que reproduzia hipotéticos diálogos de Lula falando sobre ministros de seu governo, destacando as peculiaridades mais engraçadas de cada um. 

O “elenco” era amplo. Ciro Gomes, Marina Silva, Dilma Rousseff, Jaques Wagner, Fernando Henrique e muitos outros. Na verdade, todos. Nenhum dos “colegas” escapava ao espírito gozador de Eduardo Campos. 

Juntando-se à leveza de alma a consistência política, uma conversa com ele era sempre proveitosa e prazerosa. Na medida dos limites da estratégia, era transparente. Quando indicava seus passos podia até omitir, mas não mentia. Cabia ao interlocutor pesar, medir e concluir.

Ocorreu assim anos atrás quando, em diálogo rápido num restaurante em Brasília, deu sinais de que abriria (sem querer querendo) com sutileza as portas de saída ao PSB a Anthony Garotinho. Aconteceu de novo em 2013. 

O cenário era de indefinição sobre se seria ou não candidato a presidente, se deixaria ou não a área de influência do PT - surgiram especulações a respeito da possibilidade de Eduardo Campos aceitar a proposta do PT de concorrer à Presidência apenas em 2018 e desistir da disputa em 2014. 

Diante do quadro, o então governador de Pernambuco dizia: “Tem gente que ainda está esperando o cumprimento de compromissos de 1989”. Portanto, não seria ele a acreditar em promessa futura diante de acertos descumpridos do passado. Sem que ele dissesse de maneira explícita, estava claro que sairia candidato.

O projeto, construir um caminho político-eleitoral independente das duas forças preponderantes no País, PT e PSDB. Construção difícil, mas não impossível à qual Eduardo Campos começou a se dedicar com o discurso da “nova política” mais objetiva que a agenda “sonhática” de sua companheira de chapa Marina Silva. 

Campos costumava lembrar exemplos da história do Brasil para mostrar que seria perfeitamente possível governar sem lotear os cargos da administração pública entre partidos. O engajamento da sociedade na agenda política, segundo ele, seria a chave, tal como já ocorrera por ocasião da campanha pela redemocratização do País, no governo de transição depois do impeachment de Collor e à época da implantação do Plano Real. 

Na opinião dele, a urgência de renovação dos meios e modos de se fazer política poderia motivar o mesmo tipo de mobilização, a depender da disposição do governante eleito de utilizar a força obtida nas urnas para unir o País em torno de uma pauta inovadora desse tipo. 

Nessa concepção, caberia às lideranças, no caso específico ao presidente, transformar a apatia decorrente da indignação social com os políticos e os partidos em motor da geração de uma força coletiva de vontade de renovação. 

Sem mau humor, sem descrença, sem divisões, sem “eles”. O Brasil de todos nós. Agregador, assim era Eduardo Campos, um político de quem se podia discordar, mas uma pessoa de quem era absolutamente impossível não gostar.

DORA KRAMER: A sangue quente




Se ainda não há fatos a comentar, só nos resta raciocinar sobre hipóteses. É assim, meramente hipotético, que se desenha o horizonte eleitoral a partir da morte do candidato do PSB, Eduardo Campos.

No necessário afã de analisar o quadro por ora presumido (inexistente do ponto de vista estrito da realidade), as premissas não necessariamente estão corretas e, portanto, as conclusões de hoje podem ou não se realizar.

De onde convém conferir a elas peso relativo. Rezou o consenso nas análises políticas feitas a sangue quente logo após a confirmação do acidente que a eleição presidencial virou de cabeça para baixo, voltou ao ponto zero, sofreu uma mudança radical e que nada do que aconteceu até agora pode ser considerado.

Houve até quem dissesse que as pesquisas de opinião deveriam ser rasgadas, por inúteis. Um exagero, pois não medem apenas as intenções de votos entre os candidatos. Por outra, registram as respectivas taxas de rejeição, as posições do eleitorado de acordo com as faixas etárias, de renda, escolaridade, distribuição de votos por regiões, dados importantes que não se perdem como referência.

Evidentemente, haverá mudança no cenário. Só não é possível - fora do terreno da especulação - dizer ainda qual a dimensão dela nem em que qual direção será. Nos mais das vezes as variáveis mais lógicas contrariam o resultado esperado. A realidade costuma ser desobediente.

Por exemplo: quando Eduardo Campos e Marina Silva anunciaram a inesperada aliança, em outubro de 2013, a interpretação da maioria dos analistas (entre os quais me incluo) foi a de que haveria um abalo na eleição, que a tradicional polarização entre PT e PSDB estaria definitivamente ameaçada e que aquela união alteraria o quadro de maneira acentuada.

A tragédia do avião que caiu em Santos não permitiu que soubéssemos o restante da história, mas até aqui o roteiro não havia obedecido ao previsto: com a exposição inicial proporcionada pelo lance político, o candidato do PSB chegou a alcançar 15% nas pesquisas, mas depois voltou ao patamar entre 8% e 9%, enquanto foi se confirmando concentração da disputa entre Dilma Rousseff e o tucano Aécio Neves.

Eduardo Campos estava com dificuldade para explicar seu discurso sobre a "nova política", era muito cobrado a respeito das fontes de recursos para executar as propostas que apresentava, carregava a tarefa de aparar arestas em setores refratários à sua vice Marina Silva e, ao mesmo tempo, a missão de seduzir o eleitorado identificado com o simbolismo da antipolítica representado por ela.

E agora? Agora há pouquíssima margem para manobras. A lei eleitoral dá ao PSB dez dias, a contar de ontem (14), para registrar outra candidatura no Tribunal Superior Eleitoral ou abrir mão de disputar a Presidência. O prazo vence no sábado (23).

A direção do partido bem como a candidata a vice até ontem se recusavam a conversar sobre o futuro antes de concluídas as homenagens fúnebres a Eduardo Campos. As lideranças do PSB estavam em São Paulo ocupadas com a liberação dos restos mortais para o velório e enterro, no Recife.

Isso aconteceria no fim de semana ou até depois, pois a viúva de Eduardo Campos, Renata, determinou que o corpo do marido só fosse liberado junto com o das outras seis vítimas. Sobraria muito pouco tempo para uma decisão política. O que encaminha a solução para a saída mais natural, que é o nome de Marina Silva.

Isso por si só zera o jogo? Depende. De vários fatores. Do comportamento do eleitorado que pode não ser o mesmo que deu a ela 20 milhões de votos em 2010; do PSB, cujo controle estava nas mãos de Eduardo Campos; da repercussão no eleitorado do Nordeste; na durabilidade da comoção nacional que lamentavelmente só fez o País despertar para a qualidade de Eduardo Campos após a sua morte.

O PSB fica num dilema: vai com Marina ou racha com ela ou sem ela.

MERVAL PEREIRA: Por baixo dos panos


Ao sentir que há o perigo de o PSB tomar um rumo diametralmente oposto ao traçado por Eduardo Campos em sua campanha, apoiando oficialmente ou em uma aliança branca a reeleição da presidente Dilma, sua família não se furtou a definir uma posição a favor da candidatura da ex-senadora Marina Silva à Presidência da República.


Seu irmão, também membro do diretório nacional do partido, declarou que a vontade de Campos seria que Marina o sucedesse. O filho mais velho, João, postou no Facebook uma mensagem direta: as bandeiras de meu pai precisam ser levadas adiante. 

Quem as representará melhor, Marina, que era sua vice, ou Dilma, que era seu alvo preferencial?

Enquanto a direção nacional do partido, tendo o novo presidente Roberto Amaral à frente, se escudava no luto oficial para adiar a discussão da sucessão, por baixo dos panos as negociações já começaram, especialmente através do ex-presidente Lula, para que o PSB não lance candidato próprio, ou lance um nome de sua base política que não seja Marina, a pretexto de preservar a estrutura partidária.

Na verdade, além do interesse político de recolocar o PSB na base aliada governista, há a preocupação de ala importante da direção nacional da legenda de não perder o controle sobre a máquina partidária. Com a assunção de Marina Silva à condição de candidata oficial do condomínio PSB- Rede, o controle da campanha passará naturalmente para os seus aliados. É Marina, e não qualquer outro político do PSB, que detém hoje uma expectativa de poder altamente avaliada, e por isso os candidatos pelo país afora devem também pressionar a direção nacional para que ela seja a escolhida.

Marina não dará nenhum passo para ser indicada, e terá que ser convidada pela direção nacional dos partidos aliados, na sua maioria já dispostos a apoiá-la. Ela sem dúvida começa a campanha com alto potencial de crescimento, e deverá atrair boa parte dos eleitores que hoje se declaram indecisos, ou dispostos a anular o voto, especialmente os jovens que já começaram nas redes sociais campanha pela sua candidatura.

Os primeiros números de pesquisas eleitorais, como a do Datafolha que deve ser divulgada domingo ou segunda-feira, devem apresentar um índice bastante positivo a favor de Marina, turbinado pela emoção desses momentos. As pesquisas a partir de setembro, com a propaganda eleitoral já em curso, devem mostrar um quadro mais real.

Embora se apresente como uma alternativa ainda mais viável à polarização PT/PSDB, num primeiro momento Marina deve tirar mais votos de Dilma do que de Aécio Neves, mas pode retardar o crescimento dos tucanos. Uma perspectiva radicalmente oposta ao quadro atual, que Eduardo Campos gostava de lançar nas conversas, era a possibilidade de ele ir para o segundo turno contra Aécio Neves, com a presidente Dilma ficando de fora.

Essa hipótese se torna mais possível, embora altamente improvável, com a candidatura de Marina, que acrescenta elementos novos à disputa. A ex-senadora terá, no entanto, mais dificuldades em sua campanha do que teria Eduardo Campos, já que ela não contará, em qualquer hipótese, com um partido unido a apoiá-la.

O PSB entrará em grande disputa interna, e também com a Rede, o que é perigoso para uma campanha majoritária. Além do mais, acordos feitos por Eduardo Campos em vários Estados poderão reagir a uma candidatura Marina. O PMDB do Mato Grosso do Sul, por exemplo, com a candidatura de Nelsinho Trad, de uma família do agronegócio, já anunciou que reverá a aliança.

Em Pernambuco, o PSDB acha que agora tem espaço para polarizar com a presidente Dilma por que Marina não terá um terço dos votos que o Eduardo teria, e um eleitorado de oposição ficará em busca de um candidato. Em São Paulo desaparece a campanha para o PSB, pois Marina foi contra a aliança.

Os apoios estruturais, montados, com candidatos a deputados, ela não terá em São Paulo, onde foi muito bem votada em 2010. Pode repetir a boa votação na capital, mas no interior a falta de estrutura a prejudicará. Em Santa Catarina, o grupo político dos Bornhausen, que lançou Paulo Bornhausen ao Senado, não tem ligações com Marina e tende a apoiar o candidato tucano à Presidência.

Em Alagoas, Marina se recusava a subir no palanque do senador Benedito de Lira do PP, candidato ao governo apoiado por Campos. Em Mato Grosso, senador Pedro Taques do PDT, que apoiava Campos, já anunciou que mudará para apoiar a candidatura de Aécio Neves.

Com Marina em campo, como se vê, são muitas as alternativas abertas com a saída de cena de Eduardo Campos, e é impossível prever o que acontecerá. Quem disser, a esta altura, que sabe o que vai acontecer, estará errando.

Fonte: Blog do Merval

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