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quinta-feira, novembro 07, 2019
☕ Newsletter CNC - 07/11/2019
Embrapa - Adoção e inovação, não versus
Adoção e inovação, não versus
Conceitos convergentes determinados pelo usuário, o produtor rural
Dados recentes do Global Innovation Index (GII) 2019, ranking anual baseado em crescimento impulsionado pela inovação, mostram que entre as maiores empresas inovadoras do mundo, a maioria não utiliza tecnologia, de fato, nova em suas inovações. Constatação que causa inquietação entre os atores de diversas cadeias produtivas, entre eles, os pesquisadores, e reforça a busca por respostas.
No setor agropecuário não é diferente e o certo é que há fatores que determinam se uma tecnologia é inovadora ou não. A maior parte dessas condicionantes não está nas mãos de pesquisadores (ou equipes), responsáveis por desenvolver as soluções tecnológicas. "Há um gap entre a tecnologia e a inovação, que se materializa quando há determinadas condições", afirma o professor Antônio Marcio Buainain, do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp-SP).
A primeira delas são as características socioeconômicas e pessoais do produtor rural. Isso vai do capital humano, nível de educação (formal e informal), cultural, ao capital social. A seguir estão as peculiaridades da unidade produtiva, como distância, acesso, condições de escoamento, topografia, tamanho, microclima e tantos outros elementos.
A própria tecnologia tem seu peso. "Boas ou não, as tecnologias não são neutras e interagem com outras características e nem sempre é possível adaptar um ativo a um conjunto de condicionantes", enfatiza o economista. Por fim, há fatores sistêmicos, como indústria, mercado e investimento e a pesquisa pouco consegue alterar essas condições, mesmo intencionada.
"A tecnologia pode atender uma necessidade, se justificar, ser prática, ser vantajosa e, ainda assim, não se difundir e nem transformada em inovação pela ausência dessas particularidades", ratifica o professor da Unicamp. Seus estudos, desde a década de 90, mostram que tais forças são capazes de transformar uma tecnologia em inovação e passível de adoção.
Atuação da Embrapa
Diante desse cenário, a Embrapa construiu um novo modelo de gestão de PD&I, baseado na inovação aberta, o qual encurta o caminho para a adoção de tecnologias porque as pesquisas são definidas em conjunto com o setor produtivo, a partir de suas demandas e necessidades.
Segundo o secretário de Pesquisa e Desenvolvimento da estatal, Bruno Brasil, a mudança na lógica de atuação da Embrapa, antes mais focada num modelo de produção e oferta, teve como um de seus principais desafios equilibrar a disparidade entre o avanço do conhecimento científico (quantidade de artigos publicados aumentou 300% nos últimos 13 anos) e dos indicadores de inovação, especialmente as parcerias diretas com o setor produtivo, que figuravam em apenas 5,9% dos projetos até 2018. "Era preciso mudar esse cenário. Ajustá-lo às imposições de um mundo moderno e globalizado, no qual as respostas precisam ser rápidas e objetivas", frisa.
São três as principais premissas do modelo de inovação aberta da Embrapa: orientar o programa de PD&I por missões; aumentar a interação com o setor produtivo e investir prioritariamente no desenvolvimento de ativos. Para estimular a formação de parcerias público-privadas, os projetos são cofinanciados, a propriedade intelectual pode ser compartilhada e as contratações são em fluxo contínuo.
Bruno ressalta a importância da ciência para a agricultura brasileira, fazendo com que o País passasse de importador de alimentos, na década de 1970, para um dos mais importantes players do agro mundial hoje. "Essa transformação, sem precedente no cinturão tropical, se deve em grande parte aos investimentos em CT&I", destaca. Em quatro décadas, a produção de grãos aumentou cinco vezes; a produtividade de trigo e milho cresceu 240%; a do arroz 315%; o setor florestal elevou a produtividade em 140%; o rebanho bovino dobrou e a produção de carne de frango foi ampliada 59 vezes.
Os pesquisadores Antônio Marcio Buainain e Bruno Brasil falaram sobre esses assuntos durante a abertura do Simpósio Internacional sobre Adoção de Tecnologias Agropecuárias, que acontece em Campo Grande (MS), sob responsabilidade da Embrapa e das Universidades Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) e da Grande Dourados (UFGD).
Sobre o Simpósio
Durante a abertura (6), o chefe-geral interino da Embrapa Gado de Corte, Ronney Mamede, especialista em inovação e empreendedorismo, jogou ao público reflexões que antecederam as duas palestras, como "o que nos limita de alcançar nosso pleno potencial? Por que, em alguns setores do agro, em algumas cadeias específicas e em algumas regiões do país, ainda 'cavalgamos' enquanto poderíamos 'voar'?".
Além de Mamede estiveram presentes o chefe-geral e adjuntos da Embrapa Agropecuária Oeste (Dourados-MS), Guilherme Asmus, Harley Nonato de Oliveira e Auro Otsubo; o presidente do Sistema Famasul, Maurício Saito; o diretor-presidente da Fundação de Apoio ao Desenvolvimento do Ensino, Ciência e Tecnologia do Estado de MS (Fundect) Márcio Araújo; e o superintendente da Secretaria de Estado de Meio Ambiente, Desenvolvimento Econômico, Produção e Agricultura Familiar (Semagro), Rogério Beretta.
O evento, inédito no Brasil, acontece entre os dias 6 e 8 de novembro no Sindicato Rural de Campo Grande (MS), com o objetivo de promover um debate ao redor do tema, a fim de identificar prioridades para o ensino, a pesquisa e a extensão rural. O Simpósio tem o apoio do Sindicato Rural, CNPq, Fundect, Fundapam e Agência Municipal de Meio Ambiente e Planejamento Urbano (Planurb) e patrocínio de ServSal e Caixa de Assistência dos Profissionais do Crea-MS (Mutua).
A proposta ao final dos três dias é construir uma rede de cooperação em adoção de tecnologias e inovação, buscando colocar as necessidades do produtor rural brasileiro em primeiro plano.
Redação: Dalízia Aguiar e Fernanda Diniz, jornalistas Embrapa
Foto (Lilian Alves): tecnologias usadas na pecuária
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Núcleo de Comunicação Organizacional - NCO
Embrapa Gado de Corte
Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa)
Campo Grande/MS
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Telefone: +55 67 3368-2142 / 2144 / 2203
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quarta-feira, novembro 06, 2019
Embrapa - Quanto custa errar no manejo do pasto?
Haroldo Pires de Queiroz
zootecnista, analista e difusor de tecnologia, Embrapa (Campo Grande-MS)
- Depende ...
- Não me enrola!
- Vai aí de uns R$ 500,00 a mais de R$ 3.000,00 por hectare, por ano.
- Tá bom. Depende do quê?
- Do peso de abate dos seus animais, do sistema de pastejo, se usa adubação ou não. Quanto mais intensivo o seu sistema de produção, mais caro sai errar no manejo. Quanto melhor a estrada e o carro e mais veloz o motorista, mais feio é o desastre!
- De onde você tirou os quinhentos e os três mil reais?
- Posso te explicar, mas você vai precisar de uma calculadora pra me acompanhar...
- Tá na mão, que eu não corro da raia.
- ...e preciso explicar primeiro o que a gente chama de manejo correto das pastagens.
- Anda logo.
- Digamos que manejo correto é aquele que leva a uma maior produção de carne por área, com maio lucro e menor impacto ambiental – sem degradar a pastagem nem o solo e com a menor emissão dos gases que esquentam o planeta.
- Continua, porque isso tá meio vago, meio filosófico demais.
- Você tem que manejar o capim dentro de alturas máximas e mínimas para cada cultivar e adubar as pastagens para repor o que foi extraído do solo pelo capim, comido pelo boi e levado embora para o frigorífico.
- Mas até há pouco eu achava que o certo era cumprir um tempo fixo de descanso depois do pastejo. Tipo Voisin.
- É que com o tempo fixo de descanso, com mais ou menos calor, chuva, adubo e luminosidade a planta pode não ter crescido o suficiente ou já passou do ponto. Tem que variar o período de descanso pra sempre chegar na proporção correta de folhas e talos, que vai resultar no maior ganho de peso individual, na maior lotação e no maior número de ciclos de pastejo por ano. Ou seja, tem que entrar com o boi na altura certa do capim.
- E o que eu faço com a calculadora?
- Vamos lá. Li num artigo da Embrapa que o capim-marandu superpastejado até chegar a 15 cm suportou uma lotação de 3,2 UA/ha e os novilhos ganharam 560 g/cabeça/dia. No final de um ano, multiplicando a lotação pelo ganho individual, deu uma produção de 428 kg de peso vivo por hectare. No manejo correto do pastejo contínuo, mantendo o capim o ano inteiro próximo de 30 cm deu uma lotação menor, 2,8 UA/ha. Mas os novilhos ganharam mais: 760 g/cab./dia, levando a produção anual para 485 kg/ha.
- Quer dizer que o pastejo correto deu 57 kg de peso vivo a mais, por hectare e por ano? Isso são 2 arrobas a mais por hectare, todo ano!
- Isso mesmo! E o subpastejo também dá prejuízo. Pra manter o marandu mais alto, a 45 cm, a lotação anual cai para 2,0 UA/ha e, o que é pior, o ganho de peso diminui pra 730g/cab./dia. Se você acha que com pasto alto, sobrando, o boi ganha mais, está enganado. O pasto alto fica passado, digere menos, o boi se alimenta mal e acaba ganhando menos peso. No final, com melhor lotação e menor ganho por animal a produção de carne cai para 344 kg/ha. São 141 kg/ha a menos, quase 5 arrobas a menos, por hectare, por ano.
- E quanto custa essa produção a menos?
- Considerando um custo de produção diário de R$ 1,80/cab./dia e o preço de R$ 4,90 por quilo de peso vivo (R$ 145,00 / @), a receita líquida para o pastejo correto é de R$ 4.425,00/ha/ano contra R$ 3.280,00 no superpastejo e R$ 3.014,00 no subpastejo.
Nesse custo já está embutidos: adubação de manutenção, depreciação das instalações e máquinas, mão de obra, taxas e os outros insumos, como medicamentos e suplementos minerais.
- Caramba, então o pasto rapado me dá um prejuízo de mais de R$ 1.000 por hectare por ano! Dá mais de R$ 570.000,00 por ano nos meus 500 ha de braquiarão.
- Pois é, e se deixar o pasto passado o ano inteiro, o prejuízo é de quase R$ 1.500,00/ha, mais de R$ 700.000,00 nos seus 500 ha.
- E sem adubação anual de manutenção?
- Os custos caem pra R$ 1,50/cab./ano, a lotação cai pela metade e o prejuízo só do manejo é de R$ 580,00 no superpastejo e R$ 840,00 no subpastejo. Comparado com o manejo correto e adubado, não adubar e subpastejar leva a uma perda de R$ 2.820,00 /ha/ano. Sem adubo e rapado o prejuízo é de R$ 2.560,00/ha. Uma traulitada de quase R$ 1.300.000,00, todo ano, nos seus 500 ha! Tá bom pra você?
- Viiiiche!!!!!
Exemplos nas tabelas abaixo:
Capim-marandu com adubação
Altura da pastagem
|
Lotação
|
Ganho de peso
|
* Duração do ciclo de acabamento
|
Lotação
|
Custo total
|
Receita
|
** Resultado/ciclo
|
Resultado anual
|
*** Prejuízo
|
(cm)
|
(UA/ha)
|
g/cab/dia
|
(dias)
|
(cab./ha)
|
(R$ 1,80/ cab/dia)
|
(R$ 4,90/
kg de PV) |
(R$)
|
(365 dias)
|
(R$/ha/ano)
|
15
|
3,2
|
560
|
500
|
2,9
|
2.610,00
|
7.105,00
|
4.495,00
|
3.281,35
|
1.144,28
|
30
|
2,8
|
760
|
368
|
2,5
|
1.657,89
|
6.125,00
|
4.467,11
|
4.425,63
|
....
|
45
|
2
|
730
|
384
|
1,8
|
1.242,74
|
4.410,00
|
3.167,26
|
3.013,99
|
1.411,64
|
* Tempo para um bezerro de 220 kg ganhar 280 kg e atingir o peso de abate, 17@ (500 kg): 280 kg dividido pelo ganho diário de peso.
** A receita menos o custo total
*** Diferença entre os resultados do manejo a 30 cm e dos manejos a 15 ou 45cm.
Capim-marandu sem adubação
Altura da pastagem
|
Lotação
|
Ganho de peso
|
* Duração do ciclo de acabamento
|
Lotação
|
Custo total
|
Receita
|
** Resultado/ciclo
|
Resultado anual
|
*** Prejuízo
|
(cm)
|
(UA/ha)
|
g/cab/dia
|
(dias)
|
(cab./ha)
|
(R$ 1,50/ cab/dia)
|
(R$ 4,90/
kg de PV) |
(R$)
|
(365 dias)
|
(R$/ha/ano)
|
15
|
1,6
|
560
|
500
|
1,5
|
1.125,00
|
3.675,00
|
2.550,00
|
1.861,50
|
582,18
|
30
|
1,4
|
760
|
368
|
1,3
|
718,42
|
3.185,00
|
2.466,58
|
2.443,68
|
....
|
45
|
1
|
730
|
384
|
0,9
|
517,81
|
2.205,00
|
1.687,19
|
1.605,54
|
838,13
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